domingo, 22 de março de 2009

As Horas (The Hours - 2002): Stephen Daldry



Adaptação do romance "The Hours" de Michael Cunningham, este filme nos apresenta a vida de 3 mulheres que vivem em épocas diferentes. No entanto sofrem do mesmo pesar. A primeira, no início do séc. XX é Virgínia Woolf, escritora que sofre de depressão e tem constantes crises. Sente-se infeliz por ter sido arrastada por seu marido para um subúrbio no interior da Inglaterra. Apesar de uma forte personalidade, possui uma aparência frágil. Escreve neste período de reclusão o romance intimista "Mrs. Dolloway" que retrata a vida de uma mulher que apesar das aparências está desmoronando por dentro, como se quisesse gritar e não tivesse voz nem ninguém para ouví-la.

Sua obra seria mais tarde, nos anos 50, lida e tida como paralelo por Laura Brown, uma mulher casada e com um filho, que aparentemente tem uma vida perfeita a qual seu marido faz questão de ressaltar. Ela apenas ouve e se contorce por dentro, no entanto consegue esconder seu desespero do marido, o que não passa despercebido pelo seu filho.

No ano de 2001, conhcemos Clarissa Vaughn que se prepara para dar uma festa em homenagem a seu ex-amante e agora amigo Richard, que sofre com a AIDS. "Mrs. Dalloway" era como Richard a chamava, apesar de todo o entusiasmo e força que cercava Clarissa ele sabia das semelhanças entre as duas, sabia que Clarissa se prendia a ele, que na verdade ela não vivia.

Primeiro temos a autora do romance, segundo temos a leitora do romance e por último temos a própria personagem do romance trazida para o 'real'. Esse processo é mostrado pelo filme através de uma linguagem cheia de cortes e 'idas e vindas' no tempo. Daldry se utiliza de closes que permitam mostrar o sentimento que aflige as personagens, desde uma lágrima presa até um quebrar de ovos trêmulo. A câmera não se importa em retratar um todo, se prende a cada personagem, destacando-o do resto.

As Horas recebeu diversas premiações como prova de seu sucesso. Podemos citar o Oscar de melhor atriz para Nicole Kidman (Virgínia Woolf) incluindo outras 8 indicações, 2 Globos de Ouro (melhor filme e melhor atriz-drama para Nicole) e 2 premiações no BAFTA (melhor atriz e trilha sonora).

sábado, 21 de março de 2009

O Leitor (The Reader - 2008): Stephen Daldry



É fato que todos os anos surgem filmes que nos remetam ao Holocausto. Este é um deles, uma adaptação da obra de Bernard Schlink. No entanto o que difere O Leitor dos demais é a trama na qual ele se constrói, o holocausto é apenas um degrau de uma escada grandiosa.
Aqui temos Hanna Schmitz interpretada de forma espetacular, por Kate Winslet, uma ex-nazista que se apaixona pelo jovem Michael Berg. Mesmo com a diferença de idade e a situação hostil da época eles se apaixonam e assim permanecem por um tempo, até que Hanna desaparece da vida de Michael e este segue com sua vida, cursando a faculdade de direito. Passado alguns anos, em um dos inúmeros julgamentos que Michael vai assistir com os outros alunos, para sua surpresa ele reencontra Hanna, agora sendo julgada por crimes nazistas. Aqui Michael traz de volta todas as suas lembranças e tem a chance de inocentar Hanna pois ele se dá conta do que os espectadores mais espertos já haviam descoberto, e esse é o ápice do filme. A capacidade que o ser humano tem de discernir o passado e o presente, os atos e as pessoas, a verdade e a omissão. Michael entende que pode inocentar alguém, mas ao mesmo tempo descobre novas informações da antiga Hanna que conhecia, reservada (pelo medo que sentia de seus segredos), forte e ao mesmo tempo frágil. Teria ela merecido estar ali? Seria justo que ela pagasse de tal forma? As dúvidas que surgem na cabeça de Michael o inibem de agir de imediato. Sente-se apertado, de um lado pela culpa e de outro pelo remorso.
Kate Winlet recebeu pela interpretação de Hanna o Oscar de melhor atriz, o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, a premiação de melhor atriz coadjuvante pelo SAG (Screen Actors Guild) e o BAFTA de melhor atriz. Considerada por ela a personagem mais difícil de sua carreira.

Cidadão Kane (Citizen Kane - 1941): Orson Welles



É difícil saber por onde começar quando se trata de uma obra atemporal e magnífica como Cidadão Kane. O filme retrata a vida de um garoto pobre e feliz com o nada que tinha, este se enriquesse após sua família deixá-lo sob tutoria de um banqueiro e passa a ser uma das figuras mais ricas da sociedade. Decide se tornar dono de um jornal e se utiliza de toda sua fortuna comprando bens e pessoas para atingir seus objetivos jornalisticos e pessoais. Aqui vale o comentário de que a personalidade de Kane, da necessidade de fazer com que os outros o amem pelo seu dinheiro e influência, pode ser reflexo do abandono dos pais que de certa forma o trocaram por dinheiro. De carater duvidoso esse anti-héroi choca o público da época, tanto por suas atitudes que acusavam a profissão e a política, quanto pelo fato de ser um protagonista longe de ser o galã de sempre.
O filme inova também em aspectos técnicos como de início temos uma narrativa não-linear, que começa já com a morte do protagonista. A trama se desenvolve a partir de então. No seu leito de morte Kane profere sua última palavra, "Rosebud". O significado de tal palavra passa a ser o núcleo do filme, pelo qual Thompson, um jornalista (irônico), vai atrás. Essa foi uma jogada inteligente de Orson Welles, que brinca com o espectador tentando prender a atenção a esse fato, que nada mais é que uma ilusão. Se Kane estava sozinho em seu leito de morte, como poderiam saber que essa foi a última palavra proferida por ele? Especulação e furor jornalístico, talvez? A complexidade deste enigma é sua própria simplicidade, uma essência de impossibilidade, tanto para o personagem quanto para o espectador.
Outro fator relevante no filme é a fotografia muito bem trabalhado por Gregg Toland, que através do jogo de luz e sombra dramatiza os personagens e trabalha o ambiente. Diferentemente do Expressionismo Alemão ('o mundo é assim') aqui temos a fotografia justificando as ações das personagens, complementando-os. Como nas cenas em que Kane pratica suas 'peripécias' a sombra se sobrepõe à ele, mostrando um lado mais dark e outra que podemos citar é a cena em que Kane aparece entre dois espelhos, ressaltando a personalidade, a vaidade. Welles também traz como novidade a utilização de ângulos diferentes para a câmera, ao mostrar uma angulação de baixo para cima incluindo o teto dos ambientes (novidade) a idéia de 'heroizar' o personagem é deixada de lado, pois passa a ser uma sensação de opressão de sufocamento. É o início da linguagem cinematográfica de Griffith se desenvolvendo.
Ganhou o Oscar de melhor roteiro e foi indicado a muitos outros e o Prêmio de melhor filme pelo NYFCC (New York Film Critics Circle Awards, EUA). Foi também considerado o melhor filme de todos os tempos pelo American Film Institute. Todo o alvoroço que ronda Cidadão Kane é merecido, pois foi um divisor de águas do cinema clássico e os que estavam por vir. Podemos assistí-lo hoje e daqui a 30 anos que este nã operderá seu valor, até porque sua temática sempre será atual (e aqui espero estar errado).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Trilogia das Cores (Trois Couleurs - 1993/1994): Krzysztof Kieslowski






Uma obra prima. Partindo do bicentenário da Revolução Francesa e comemoração da Unificação Européia, Kieslowski empenhado em filmar as dores do mundo se baseia nas cores da bandeira francesa e em seus lemas (A liberdade é azul, a igualdade é branca e a fraternidade é vermelha).

A trilogia se inicia com A Liberdade é Azul, com Juliette Binoche que após a perda do marido tenta se livrar de tudo que a faça lembrar dele, da dor de tê-lo perdido, ela busca uma liberdade tal como o céu, porém tal liberdade é impossível, cada um é livre para fazer o que quer, no entanto não nos damos conta que a maior liberdade é viver propriamente. Há no decorrer do filme a tranformação da dor em sublimação. Destaque para a trilha maestral e forte.

Em seguida, A Igualdade é branca que é 'quase uma comédia'. É repleto de ironias e pontuado por reviravoltas. A igualdade aqui é retratada por uma vingança, uma mulher (francesa) se divorcia do marido (polonês) alegando que este não teria consumido o casamento, deixando-o sem nada e perdido na França. Este por sua vez, retorna a Polônia sob condições desastrosas e consegue dar um salto em sua vida, decidindo então pregar as mesmas peças em sua ex-mulher, afinal a igualdade é branca, pura e clara.

Por fim, A Fraternidade é Vermelha é uma belíssima obra, comparados por muitos como uma 'poesia'. Apoiada em uma fotografia deslumbrante em tons vermelhos, que variam de cores de carros à bolas de boliche, o filme começa quando Valentine atropela um cachorro e decide levá-lo até o endereço lido na coleira do animal. Lá conhece um excêntrico senhor que possui o hábito de ouvir conversas telefônicas de vizinhos. O primeiro contato é marcado pelo repúdio de Irene, no entanto Kieslowski brinca com os personagens, considerando as impossibilidades, o aprofundamento de relações e acaba transformando em empatia a relação dos dois. A idéia de fraternidade que só é atingida, quando é, se despidos os repúdios iniciais, os pessoalismos, o quebrar do gelo. O filme silencioso e regado pelo Bolero de Ravel acentua ainda mais as emoções.

A Cor Púrpura (The Color Purple - 1985): Steven Spielberg



Você certamente conhece algum filme de Spielberg, provavelmente algum cheio de efeitos especiais ou algum sucesso de hollywood. No entanto poucos conhecem a faceta deste diretor mostrada neste filme. De uma sensibilidade extrema e sinceridade também. Como sempre, caprichoso nos detalhes das cenas e nas personagens, aqui não é diferente. Celie interpretada de forma explêndida por Whoopi Goldberg é o centro do filme, que retrata toda sua história. Emocionante e chocante é um drama que eu considero imperdível, apesar da duração longa, você se permite esperar até o ultimo minuto de filme. Recebeu algumas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e canção por 'Miss Celie's Blues' que é belíssima.

21 Gramas (21 Grams - 2003): Alejandro González-Iñárritu



Tendo no elenco Benício Del Toro e Sean Penn logo me interessei pelo filme. Com uma narrativa totalmente turbulenta de início, a trama se desenvolve como um quebra-cabeças que quando concluído revela uma imagem fantástica. Tratando de temáticas que envolvem o limiar entre o amor e a vingança e uma promessa de redenção. Como dito no filme "21 gramas é o peso que a pessoa perde quando morre", ou seja, 21 gramas é o peso que nós vivos carregamos, representa sentimentos aos quais nos sujeitamos, seria esse talvez o peso de uma vida?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona - 2008): Woody Allen



"Vicky Cristina Barcelona" traz de votla Woody Allen em perfeita forma, calando os críticos que o rebaixavam por seus últimos filmes. Ele consegue obter um humor tão bom quanto o de "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" e apesar de não atuar dessa vez, é possível percebemos a presença dele em cada diálogo. A novidade fica por conta de um novo elemento que ele incrementou em seu caldeirão, a sensualidade que combina perfeitamente com o clima caliente de Barcelona. O filme aborda a estrutura mutante do ser humano e sua busca por algo sempre. Rebecca Hall, a certinha Vicky sempre quis uma vida planejada e pacata, até conhecer o 'latinlover' Juan Antonio (Javier Bardem) e se permitir entregar às emoções. Cristina (Scarlet J.) é o oposto, aventureira e disposta a tudo, no entanto nunca sabe bem o q quer, apenas sabe o que não quer e isso a move por um caminho sem fim, sua emoção, seu combustível. No decorrer do filme Cristina se envolve com o sensual Juan Antonio, que elege o prazer como seu maior guia, no entanto María Helena (Penélope Cruz) acaba entrando na trama de forma brusca, assim como deveria. Acaba se formando um triângulo amoroso, onde um indivíduo equilibra as fraquezas do outro vivendo algo momentaneamente bom, ou que eles assim pensam ser. Essa é a chave, os prazeres, os momentos, que conduzem e se fazem presentes em nossas vidas, elevando-as ao êxtase vez ou outra. E como nada é pra sempre devemos aproveitar o que o agora oferece, pois como seres humanos a insatisfação nos pertence e os prazeres são nossos por direito, então aproveite!
Recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Penélope Cruz.